A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional afirmou que foram identificados ao menos 10 falsos alertas da Defesa Civil entre a noite de sexta-feira e a madrugada de sábado, atingindo milhões de pessoas. As mensagens foram enviadas para celulares de diversas regiões do país, mas ainda não há um balanço final de quantas pessoas ou estados foram atingidos. Os esclarecimentos foram prestados pelo secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff, em entrevista à imprensa neste sábado.
Segundo a Defesa Civil, a primeira notificação aconteceu no Paraná, mas também foram afetados os estados de Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Acre. Por volta de 1h30 de sábado, a plataforma foi desligada preventivamente.
A suspeita do governo é de que a invasão do sistema Defesa Civil Alerta foi provocado por um ataque hacker. A mensagem disparada foi do tipo "Alerta Extremo" e continha a palavra “misantropia”, que significa ódio à humanidade. Em alguns aparelhos, a grafia no alerta recebido foi “misantropi4”.
— Desde o final do dia de ontem e a madrugada de hoje, o sistema sofreu um ataque, tudo indica de hacker, é um desserviço à nação. Prontamente, a TI tirou o sistema do ar, mas as consequências estão aí, foram muitos alertas, entre 9 e 10 alertas — disse Wollf.
Segundo o secretário, nove alertas foram emitidos a partir da tecnologia Cell Broadcast, em que os alertas alcançam celulares lançados a partir de 2020 e com cobertura móvel 4G ou 5G que estejam na área supostamente afetada. Um outro alerta foi emitido a partir do sistema SMS, de mensagens, que demanda cadastro prévio.
Wollf disse que é muito difícil identificar o número de aparelhos celulares que soaram devido à invasão do sistema, porque foram muitos estados que sofreram com o golpe ao mesmo tempo. Ele explicou que os credenciamentos para pessoas que têm permissão para dar alerta são feitos por estados. Então, em tese, uma mesma chave de acesso não poderia ter enviado as mensagens para diferentes estados.
— Cada alerta deveria ser para um Estado. Jamais era para um funcionário conseguir fazer um alerta para outro estado — explicou. — Não sabemos se foi uma ou mais pessoas que deram os alertas.
A categoria “Alerta Extremo” é reservada para situações de risco iminente à vida, como enchentes, deslizamentos e tempestades severas. O conteúdo não tinha qualquer relação com protocolos oficiais de emergência, o que levantou suspeitas imediatas sobre a autenticidade do disparo.
A plataforma foi desligada às 1h30 deste sábado e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil está tomando as providências para religar o sistema o mais rapidamente possível, quando todas as condições de segurança forem restabelecidas. O ministério já acionou a Polícia Federal para investigar o caso.
— Investigações serão capazes de fazer avaliação, entender como aconteceu, como uma pessoa fora do sistema conseguiu acessar — destacou.
Wollf afirmou, no entanto, que tudo indica que não foi um servidor da Defesa Civil que disparou as mensagens, mas um ataque externo, um crime cibernético.
Em nota, a Secretaria informou que bloqueou todos os acessos externos à Interface de Divulgação de Alertas Públicos, onde foi identificado o " incidente de segurança cibernética". As contas dos usuários envolvidas no caso foram suspensas, mas os registros e logins do sistema foram preservados para a perícia. A pasta ainda notificou o Centro de Prevenção, Tratamento e Resposta a Incidentes Cibernéticos de Governo para que acompanhe os desdobramentos do episódio.
— O que parece ter ocorrido é que se cadastraram no sistema e fizeram alerta a partir de Curitiba (PR). A gente bloqueou. Depois outra pessoa entrou com outro usuário e disparou outro alerta. —Com a entrada da PF nessas investigações, a gente tende a evoluir pra ter informações mais completas
O secretário disse também que ainda não há previsão para a normalização do funcionamento da plataforma, mas que essa é uma prioridade do governo. Wollf reconheceu que problemas como esse afetam a credibilidade perante à população do sistema, cujo objetivo é evitar riscos às pessoas, mas afirmou que a secretaria vem trabalhando desde o começo do ano para aumentar a robustez da plataforma e que quer colocar no ar a nova versão no menor tempo possível.
Os aprimoramentos estão focados principalmente, segundo ele, na permissão para acesso ao sistema. Ele ainda disse que, após as investigações sobre o episódio atual, a secretaria vai avaliar a necessidade de outras alterações para melhorar a plataforma.
— Temos que entender como aconteceu esse ataque, ver se o (problema) está atendido por esse desenvolvimento (que já está em curso). E no menor tempo possível, é uma prioridade, colocar no ar essa nova versão que garanta mais segurança ao sistema — prometeu. A TI passou a madrugada trabalhando nessa avaliação do que ocorreu, como o grupo fez a invasão do sistema.
O episódio mobilizou órgãos estaduais de Defesa Civil. Em São Paulo, o governo informou que não foi responsável pelo envio da mensagem e destacou que não havia qualquer situação que justificasse um alerta extremo no estado. A administração paulista acrescentou que acionou a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e os demais órgãos envolvidos na operação da ferramenta para apurar o incidente.
No Rio de Janeiro, a Defesa Civil estadual também esclareceu que o aviso não partiu de seus sistemas e atribuiu o problema a uma falha na plataforma nacional. O órgão ressaltou que não existia qualquer risco relacionado a desastres naturais que justificasse uma comunicação emergencial aos moradores fluminenses.
Situação semelhante ocorreu no Paraná, onde diversos usuários relataram o recebimento da mensagem. O governo estadual informou que não emitiu o alerta e que não havia previsão de fenômenos meteorológicos severos capazes de justificar o acionamento da ferramenta.
Criado para ampliar a capacidade de resposta em situações de emergência, o Defesa Civil Alerta utiliza a tecnologia Cell Broadcast para enviar mensagens diretamente aos celulares localizados em áreas de risco, sem necessidade de cadastro prévio. As notificações são acompanhadas de aviso sonoro e têm como finalidade orientar a população diante de eventos que possam representar perigo imediato.
O que significa 'misantropia'?
Misantropia é o termo usado para definir aversão, desprezo ou até mesmo ódio à humanidade. A palavra ganhou destaque na madrugada deste sábado após aparecer em um falso alerta enviado a celulares em diferentes regiões do país por meio da plataforma Defesa Civil Alerta, levando muitos brasileiros a buscar seu significado.
Segundo o dicionário Michaelis, misantropia é a qualidade de quem demonstra rejeição ou desconfiança em relação à natureza humana. O termo também pode ser empregado para descrever pessoas que evitam o convívio social ou preferem o isolamento.
Estadão

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