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Com Jacobina em destaque, Tremores de terra na Bahia entre janeiro e setembro superam registros de 2024 e 2025


com 146 registros, Jacobina localizada na região norte, é a campeã dos eventos sismológicos.


Claudia Leitte se enganou quando cantou na música ‘Paz, Carnaval, Futebol’ que no Brasil “não tem terremoto”. E quem mostra isso são os dados coletados pelo Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabSis/UFRN). A Bahia é o estado do Nordeste com mais tremores registrados nos últimos três anos, segundo o levantamento feito pelo CORREIO.

De janeiro até o dia 29 de setembro deste ano, foram registrados 154 tremores em território baiano (cidades e regiões como a Costa do Atlântico e Plataforma Continental), valor que é maior que o contabilizado em todo o ano de 2024 (131) e 2025 (135). Mas por qual razão há tremores na Bahia se na escola a gente aprende que o país está sobre a Placa Sul-Americana e as bordas são as zonas onde há riscos de grandes  terremotos?

A resposta é que sempre existiram registros de tremores no nosso país, mas que isso acabou sendo suprimido do ensino educacional, de acordo com o mestre em Geofísica e técnico do LabSis Eduardo Menezes. “Aí que está o grande, vamos dizer assim, problema cultural. Na década de 30, na época, acho de Getúlio Vargas, havia sido banida essas informações dos livros, que no Brasil não tinha tremor de terra. Isso aí foi um problema sério que seguiu para outras gerações. Mas não é algo novo, os tremores sempre existiram”, avisa.


Segundo o especialista, com a implantação e expansão de unidades de monitoramento, foi possível ter a real dimensão do fenômenoi. “A partir dos anos 80, 90, a expansão de estações geográficas nos deu essa condição de a gente identificar, mapear as áreas que, de fato, já existiam. Só que agora, com o monitoramento, ficou mais fácil de identificar e acompanhar diariamente essas incidências”.


Nos três anos, a Bahia foi responsável por mais de 52% das ocorrências registradas pelos sismógrafos do LabSis, sendo o único local com mais de 100 tremores por ano. Por exemplo, somando os registros do Rio Grande do Norte, segundo estado com mais ocorrências, entre 2025 e 2026, quando houve uma ampliação do monitoramento naquela região, contabilizam-se 89 tremores; muito abaixo de qualquer registro anual da Bahia. Os meses de janeiro e fevereiro deste ano registraram os maiores índices de ocorrência até aqui, com 44 e 42 eventos, respectivamente.

Onde a Bahia mais treme

Há quem brinque que Salvador, durante seus dias de Carnaval com foliões pulando na Barra-Ondina e no Campo Grande, acaba tremendo, mas a capital baiana só tem registros de tremores datados do século XVII, conforme publicado pelo CORREIO em 2020.

As três cidades baianas que mais registram ocorrências sismológicas, conforme os dados do LabSis/UFRN, são Jacobina, Jaguarari e Maracás. Líder do ranking de ocorrências do Nordeste, somando os últimos três anos, com 146 registros, Jacobina localizada na região norte, é a campeã dos eventos sismológicos.

Por sua vez, Jaguarari soma 80 tremores e fica na segunda posição regional. Maracás, com 24, é o quinto município da lista. O ranking das 10 cidades com mais ocorrências ainda aparecem Santaluz (16 sismos), Itagibá (15) e Curaçá (11).



Bahia tem seis das 10 cidades com mais tremores registrados entre 2024 e 2026
Bahia tem seis das 10 cidades com mais tremores registrados entre 2024 e 2026 Crédito: Imagem gerada por IA
O sismo de maior intensidade na Bahia este ano foi em território jacobinense, no dia 4 de março, com intensidade de 3.0 mR. Entretanto, o mais intenso ocorrido no último triênio ocorreu a quase 700 km dali, em Barreiras, no dia 14 de outubro de 2025, quando um abalo de 3.9 mR foi detectado pelos sensores. Vale pontuar que abalos abaixo da magnitude 1.5 mR sequer são divulgados pelo Laboratório devido à baixa intensidade, mas ainda assim são catalogados para fins acadêmicos.

Causas dos eventos sísmicos
De acordo com o especialista, os eventos sísmicos podem ocorrer por dois motivos: “Tem o que a gente chama atividade provocada pela atividade humana, que são causados por detonações, a exploração de minério. E tem o (evento) natural que é o tectônico, causado o movimento da própria pressão que é exercida nas falhas geológicas que existem no continente e que, próximas às áreas urbanas, são sentidas pela população”.

Eduardo explica ainda que não há sismos somente nas bordas das placas tectônicas, mas também ao longo delas, são os fenômenos “intraplaca”, apontados como os mais perigosos: “Esses costumam ser os mais perigosos, catastróficos, porque você tem cidades, você tem prédios, nessas áreas. Então, não precisa ele ter uma grande proporção, mas ele traz de fato esse impacto junto à população, pois os prédios podem desmoronar e resultar em vítimas”. Já os que ocorrem nas bordas de placas, ainda que mais intensos, acontecem há quilômetros de distância em profundidade, mas podem causar estragos pela intensidade.


Como a imensa maioria dos sismos em solo baiano possui magnitude entre 1,5 mR e 2,5 mR (com mais da metade abaixo de 2,0 mR), essa quantidade de casos quase não é percebida pela população, mas apenas pelos equipamentos de monitoramento; atualmente o LabSis tem sete estações espalhadas pelo estado. Os maiores registros dos últimos anos foram em Barreiras, 3.9 mR em 2025 e 3.6 mR em 2024, na cidade de Jaguarari.

Salvador pode ter terremotos?
Dados históricos apontam que Salvador teve registros de eventos sísmicos em sua história, com o mais antigo, até então, datado de 1724. Como a maioria dos tremores baianos decorrem de atividades humanas, sobretudo da exploração mineral em Jacobina, Jaguarari e Maracás, há de se questionar se a capital baiana pode sofrer com efeitos geológicos por causa do projeto da Ponte Salvador-Itaparica.

Segundo o geofísico do LabSis, “existe uma preocupação de ter uma sismicidade” devido às perfurações e demais atividades envolvidas no empreendimento. Há registros de tremores de pequenas intensidades na região de Vera Cruz, com epicentro próximo dos locais onde a obra está sitiada; ainda assim, Eduardo aponta que não é possível fazer essas previsões, afinal, “a natureza é uma coisa que a gente não tem esse controle”.

Para o pesquisador, tudo deve ser feito com o máximo de cautela e planejamento, seguindo rígidos parâmetros para mitigar quaisquer efeitos adversos resultados das ações humanas naquela região.

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